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Terra Blog

Arquivo de: Novembro 2007, 19

19.11.07

ComLicença pra falar de Acessibilidade...

Diz um velho ditado que para se conhecer a dor do outro, melhor seria calçar suas sandálias... Impossível ser diferente. Só calçando, realmente, para saber onde o calo aperta, onde a dor machuca e a alma macula...

Recentemente passei por uma intervenção cirúrgica nos dois olhos de uma só vez e, como não poderia deixar de ser nestas circunstâncias, fiquei três dias sem enxergar. A despeito de todas as dificuldades que uma intervenção dessas determina, do abalo emocional ou da realidade de se transformar, ainda que por curto período de tempo em uma pessoa "totalmente" dependente, ela nos dá a medida exata do que passam nossos amigos deficientes visuais (DV).

Acessibilidade, uma palavra recém lançada, recém explorada, passou a fazer parte da minha vida da maneira mais crua possível. Aliás, o que me tocou realmente, foi a falta dela.

Vivemos num ambiente inascessível. Ainda estou transtornada por não ter percebido ainda, antes disso, como os DV devem sofrer.

Tente fechar os olhos por três dias. Imagine-se sem a visão, mas não sabote suas tentativas. Permita-se, inicialmente, andar por sua própria casa. Saia da cama e procure o sofá. Nele, tente encontrar o controle remoto da TV.

Se não obtiver sucesso, não desanime. Vá para a cozinha. Busque um copo, abra a geladeira, tente pegar uma cerveja, depois o abridor e se servir.

Não páre por aí. Saia do conforto de seu lar e vá até à padaria mais próxima comprar seus próprios cigarros.

Você verá, meu amigo, e mais que isso, sentirá na pele porque passam os DV...

Aquela simples depressão do passeio de seu prédio, transforma-se numa montanha. O cinzeiro que a gente deixa displicentemente jogado no chão da sala de TV, transforma-se numa arma mortífera...

Os buracos da calçada, a distancia entre a cama e o banheiro, tudo... tudo ganha novas dimensões...

Perder, ainda que temporariamente a visão, por mais paradoxo que pareça, abriu meus olhos para um outro lado da vida. O daqueles que não têm acesso... Além disso, além de ser um bem de extrema preciosidade, os olhos, a visão, sempre foram meu instrumento de trabalho.

Hoje, praticamente recuperada, vejo a vida por um outro ângulo. Mas te aconselho a não esperar passar por isso para abrir também os seus olhos.

Faça o possível para tornar o mundo acessível àqueles que têm alguma deficiência. É honrado. É nobre da sua parte. Da deles, simplesmente humilhante... Acredite em quem passou por isso e não gostou da experiência...

Bjks... Estava com saudades de escrever aqui, de enxergar o brilho da tela novamente, de ver que por trás dela, existe uma infinidade de possibilidades às quais tanta gente não tem acesso...

Consternada ainda...

Sônia Amélia